Monday, March 05, 2007

Ô desgraça...


Ô desgraça...
Bem que eu te disse pra desconfiar quando ela disse não gostei do quadro, filhos, casamento descasado, longe pra dedéu... desespero foi é muito porque cada vez que ela se afastava, se esquivava, se fechava e me respondia com um seco sua amiga já sabia que outro romance tinha vindo de trem pegar o meu lugar no coração dela... pois é... não sei se era medusa que petrificou-me com um olhar, mas com certeza era a tal hidra de Lerna, aquela que cortando uma das cabeças nascia duas, pois então, a cada palavra desalinhada lá se iam tuas cabeças pelo chão e agora tens mais de mil e não consigo me desvencilhar da tua lembrança... ô desgraça... e houve um tempo tão glorioso em que nos falávamos todo dia, teus carinhos se faziam sentir e o mel escorrendo em cada palavrinha doce... aff... como você é má...
Fiquei assim pelo encantamento da medusa, foi... caíram todas as cabeças ao chão, restaram apenas cacos e meu coração se fez em pó... graças a Deus... foi tanto vai e volta que atualmente eu nem vou nem volto, legitimamente mandei todos a m... pra curtir com bastante empenho essa minha solidão... que que se vai fazer né... distância muita e a carne é fraca... a minha não, mas enfim... saudade é algo que sempre se pode ter e eu continuo com saudade do não visto, do não tocado, do proibido, enfim, de diadorim...

Monday, December 04, 2006

É

Quando acabou recolhi tuas roupas,
botei nas sacolas, tirei teu retrato da minha carteira,
lavei toda a roupa pra tirar o teu cheiro, os lençóis, as toalhas, limpei com um pano as digitais na mesa, nas gavetas, nas portas,
nos vidros, lavei as paredes, expulsei cada centímetro de ar que respirasse a ti, xinguei tua raça, amaldiçoei a sogra, maldisse a família e aquela costumeira cerveja no maldito bar do tio Zé no fim de tarde. Sorri só um pouco, o amarelo escondido com a mão, pensando na liberdade e na vingança tardia. Chorei mais e muito, pensando nos erros, nos seios, nos meios, nos vãos... Solidão. Fiquei foi com medo e quando fui dormir, deixei a luz acesa...

Saturday, August 19, 2006

Aranjuez

O dia começa quando a noite ainda não terminou,

se traduz em atender as crianças

durante a noite

mamadeiras e fraldas

entremeadas de sono e sonho

e silêncio

e gritos

e sonho

O nenê, mulher

O nenê está chorando

Então eu vou

meio sonâmbula

será que ainda estou sonhando

cuidado a temperatura do leite

e por um segundo esqueci

o dedo no fogo

Então realmente acordo

eu estou na cozinha

o nenê está chorando

esfria, leite, rápido

e não faça barulho para não acordar os outros

O nenê me olha no escuro

seus olhos brilham

lusco-fusco

e sorri


Dorme, filho, por favor

dorme, filho, pelo amor de deus

e digo uma prece

e peço aos anjos

que o façam dormir

e ele sorri mais ainda

recotin, recotón

de viera, de tionfon

un refresco en la cocina

quantos dedos tiene em cima?

se tuviera dicho trés

no teria dado mas...

dorme filho

y yo dormiré también


plam plam

plam plararam plam plam

plam plam

- mulher, a minha cueca...

mulher, me traz uma toalha...

- por que tu não pegas tu mesmo?

- ah, pega pra mim... vai...

Então eu pego a toalha, a cueca e

todas as outras coisas que sua dependência exige

e fico pensando

pra que casar afinal

e na minha mãe dizendo:

"- Se não dás sexo pro teu marido

ele vai procurar na rua!"

Ele que procure que eu lhe dou um pé na bunda

e faço quando tenho vontade

(que é quase nunca)

e eu poderia respeitar o meu ritmo,

o ritmo do cio, a mulher é um animal,

eu sou um animal com ciclos

então porque não respeitá-los

não quero botar meu casamento a perder

então eu deixo

deixo ele desfrutar de mim

como um ........


meu pensamento vai longe

mas ele não faz por mal, ele quer que eu sinta

mas eu sou mulher, porra

precisa ter tempo, lugar

hora, circunstância

precisa ter clima

precisa ter vontade

é preciso estar no cio

e de novo eu não quero

me trocar...


Só faço quando não tem problema

de dinheiro, pelo menos



- Se tu não ficas em casa hoje eu não vou poder fazer metade das coisas

importantes que eu tenho pra fazer.

- Mas afinal, tu queres que eu me forme ou não? me ajuda, porque senão

eu largo tudo isso e vou só cuidar dos meus filhos (é claro que não vou largar,

mas funciona ameaçar).


Então, pego meus livros, beijo meus filhos "- se comporta, hein, guri", dou

um jeito nos cabelos, um tchauzinho para a empregada e saio

dona de mim até

a porta do tribunal

e chego lá e vendo as horas

da minha vida

e entre um ofício e outro

paro e sonho


plam plãraram plam plam


e pisco um pouco

os olhos doem


- É que eu não dormi a noite, gente.

- E quem foi que não te deixou dormir, desta vez?

- Todos.

e eu mesma, com minha mente verborrágica, despejando

pensamentos

e lá se foi uma e se foram duas

e eu não dormi...

no único momento em posso

estar sozinha...


- corta-


Quando eu era muito

mas muito pequena

meu avô me pegava

no colo e cantava

músicas de ninar


tacatacapin tacapin sentinela

tacatacapin taca polichinela

tacatacapin tacapin tacapun

como dos muñecas en lo pin

pan pun


E eu sorria feliz

e confiava que a vida

era aquela sensação de segurança,

aquele conforto

e aquela música que me fazia sonhar com

tierras lontanas

y casas brancas

y calles estreitas

de onde eu vim

por que esse distanciamento

por que ser adulto é viver

angústia e medo e incerteza

e não ter tempo pra nada

e o viver que é um não-viver...


mas o ritmo da minha vida

é rápido

é uma rumba, o é una bulería,

o una alegria

que sé yo... só sei que quero viver

mais tempo neste...

- corta -


- Tu tens muito jeito, pegas rápido as coreografias, vais longe.

e os olhos dele vem e vão e piscam

e o sorriso matreiro

mas eu duvido que um homem

que vire a mão como ele na dança

seja homem

também não vou me arriscar a testar

já me basta o que tenho em casa

seria mais um pra não me entender

e viver assim aos trancos

- Mujer, pega a saia, coloca no ombro,

gira, mujer, gira

movimenta a saia

sobe a mão, devagar, mujer...

e o olhar dele me come inteira

mas eu danço e marco bem

com os tacos

e solto a minha raiva nos tacos

e bato os pés

e transpiro

e vivo

e solto o meu duende

e deliro

e quando começa

a ficar bom...


acabou a aula

até sexta-feira

e volto pra casa

cantando

e pego meu filho no colo

e giro e danço com ele,

que vibra e a casa inteira vibra

e minha filha bate com os pés

me imitando


então coloco o disco

los amores son terribles

y los celos traicioneros

e canto

e danço

e bato com os pés até

o vizinho bater

com a ponta da vassoura no teto

tudo na vida é repressão

entremeada com segundos

de liberdade.


Então faço mamadeiras e

troco fraldas e

limpo a louça e

varro a casa e

como pouco e

durmo nada e

sonho muito.


Ele não sabe que eu danço

pensa que o curso acabou e

que por causa da faculdade

eu desisti

mas eu não desisto!

isto é uma conquista

eu pratico subverter a ordem

e ser livre

e ser eu mesma

o que sempre quis ser

liberar meus instintos

e o fogo da dança dos meus antepassados

o que corre nas minhas veias

e que não consegui apagar

e que não consegui evitar

vibra agora e ferve

em minha mente e no meu sangue

e me faz, por um período curto,

viver a paixão e a alma

dos meus ancestrais.

Friday, August 11, 2006

Bolo


Bato um bolo como se fosse uma mensagem

dentro de uma garrafa lançada no mar,

como a andorinha procurando terra firme

na Arca de Noé,

como um barco vagando na imensidão procurando um porto,

é sempre uma promessa e uma esperança

a esperança que retorne e me traga boas notícias

a notícia de que não foi em vão

a notícia de que não foram desperdiçados todos esses elementos

seus constituintes e que eu poderia ter usado para fazer

outra coisa que desse certo

a notícia de que vou poder matar a fome dos olhos e das bocas

dos meus pequenos

Bato um bolo como se fosse uma odisséia

bato o bolo e rezo

pela nossa fome saciada

pela alegria quase histérica de meus filhos dizendo:

"fez bolo, mamãe?"

pelos seus olhos brilhando

pelo momento e

pela felicidade capturada...

qualquer coisa pra quem não tem nada é alguma coisa...

Thursday, August 10, 2006

Delírios noturnos

Estamos numa noite negra e sombria. Do alto de um prédio de aproximadamente três andares, antigo como o Theatro São Pedro, pendurada pela pele a ganchos pendurados no arame que vai do topo do prédio ao chão, deslizei pelo ar e esguichos do meu sangue choviam na noite. Lá embaixo , centenas de sados observam meu vôo... Desço e quando chego, pelo gemido o enfermeiro de plantão sabe que exagerei e vai chamar o médico. O médico - personagem cadavérico saído de um sarcófago egípcio forrado de facas com seus gumes afiados voltados pra dentro... Ele sai de lá sorrindo e me diz: "exagerou de novo, hein..." e me aplica um analgésico e eu reclamo dizendo: "só um pouco... não muito...."

Wednesday, August 09, 2006

De tempestades e sonhos


Começou de repente e ninguém notou.
Uma garoa fina que aveludava os vidros das casas e dos carros e deixava minúsculas gotas sobre a copa das árvores. O vento soprou e mais nuvens se uniram no céu e a chuva começou a cair, como num dia normal de inverno. Passaram-se dias, e o encontro das águas foi inevitável. A terra, saturada de tanta água, encharcada e mais que intumescida, regurgitava de suas entranhas o que já havia virado excesso. Já desciam, unidas e reencontradas, irmãs separadas na infância, as águas dos riachos ribeirinhos que tanta alegria nos davam em nossos banhos nos verões de nossa meninice. Já com tristeza lavavam nossos pátios e carregavam as flores que meu avô havia plantado com tanto zelo. O vento soprou mais forte e o céu, rajado de luzes, fazia-se temível. Com desespero vimos a água chegar à porta do casarão, construído por escravos, onde morávamos, geração após geração, e que era todo o orgulho de minha avó. Assim, de mansinho. Sem pedir licença. Foi levando tudo, todos os nossos sonhos e esperanças, a porta e o batente e toda a fachada frontal foi destruída e carregada pela água. Os pratos e as vasilhas onde comíamos, as compotas preparadas pelas mãos habilidosas de minha avó saíram também flutuando na água até desaparecer no viscoso lodo que se formou no fundo. Muitos dias se passaram até que as águas baixassem e que pudéssemos verificar o que havia sobrado de nossa casa. Minha avó chorava a um canto e dizia: "Tudo perdido! Tudo perdido!" Até o retrato de meu avô que estava pendurado na parede desapareceu. "Minhas lembranças", dizia a minha avó, "o que eu tenho agora pra me lembrar..." E chorou. Mesmo depois que, unidos, eu, meus tios, meus pais, reunimos dinheiro suficiente para reerguer o casarão, minha avó dizia que não era como antes. E chorava pelas flores plantadas pelo meu avô e pelas paredes que ele mandou caiar, as quais nunca mais seriam as mesmas...
Assim é o nosso amor, amor meu. Exatamente como a chuva que principia como uma leve garoa, começam os desentendimentos e as pequenas mágoas são como águas que se unem e viram uma imensa dor. Neste momento, todas as boas lembranças afundam e ficam presas no fundo lamacento de nossas almas. Até que não haja nada de bom a ser lembrado. Caem os rebocos e os marcos, até que daquilo que era não reste nada. Tudo perdido. Tudo em vão. Quisera eu não tivesse te dito aquela palavra que te magoou, que gerou entre nós uma guerra sem fim, que se seguiu com mágoa, vingança, revanche, mágoa, vingança, revanche. Tudo que começa um dia tem que ter um fim. E agora eu choro, como chorava minha avó pelas flores que meu avô plantou. Eu choro pelas cores, pelos desejos, pelas esperanças que não existem mais. Eu choro pelo fim. Ah, se nós pudéssemos parar essas águas, quando ainda era tempo...